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  • Carlos Sperandio

Schumacher, Superman, Células-tronco e Cuidados Paliativos: um ponto de vista médico.


29 de dezembro de 2019. Hoje se completam 6 anos do trágico acidente de esqui do heptacampeão de Fórmula 1, o piloto alemão Michael Schumacher. E nada se sabe a respeito da real condição de saúde dele. O que leva alguns médicos como eu a se perguntarem: o que poderia estar sendo feito em relação ao estado clínico atual dele?


Publicou-se recentemente que Michael teria sido submetido a terapia com células-tronco em um renomado Hospital de Paris. As informações a respeito colocam um cirurgião cardiovascular como o médico responsável - Dr Philippe Menasché. Por meio de uma busca mais detalhada em sites de conteúdo médico, encontrei publicações dele e sua equipe sobre várias possibilidades de uso de células-tronco - mas nenhuma especificamente sobre o uso em tecido cerebral lesionado por traumatismo grave. Logo, presume-se que há ciência sendo feita, em mais um exemplo de como fortunas aceleram inovações terapêuticas.


Não há como não fazermos link com outra história de personalidade vítima de traumatismo grave. Christopher Reeve, o primeiro e mais emblemático Superman do cinema, foi vítima de uma queda de cavalo com fraturas graves nas duas primeiras vértebras cervicais, em 1995. Reeve ficou tetraplégico e necessitou da ajuda de aparelhos o resto de sua vida.


Reeve perdeu totalmente sua independência, necessitando de auxílio para se mexer, comer e até respirar. Mas manteve sua autonomia plena, pois seu cérebro estava preservado. Com isso, as escolhas sobre como lidar com sua situação continuaram sendo exclusivamente dele. Ele usou sua fortuna e sua influência para fundar um dos maiores centros de pesquisas em traumatismo raquimedular do mundo, o Reeve-Irvine Research Center.

A maior diferença entre Schumacher e Reeve foi justamente a autonomia. Schummy (até onde se sabe) está sem poder de decisão, enquanto o eterno homem de aço deu suas próprias cartas até o fim de sua vida.

Curiosamente, a terapia com células-tronco é assunto comum entre eles. Reeve e seu centro de pesquisas foram precursores no desenvolvimento da técnica. Dizem os bastidores da neurocirurgia mundial (não achei referência infelizmente, então não posso atestar veracidade) que Reeve morreu de complicações deste tipo de terapia até então inédita para essa finalidade, pois quis se submeter a ela antes das etapas de verificação de segurança padrão para novos medicamentos. Schumacher parece estar seguindo o mesmo caminho terapêutico. Embora não existam estudos específicos para uso de células-tronco em traumatismos cerebrais graves, já se foram 15 anos de vasta pesquisa científica em células-tronco separando os dois casos. Nas lesões como a de Reeve, por exemplo, já há casos de sucesso sendo reportados, com pacientes recuperando mobilidade após o uso desta terapêutica em traumatismo medular grave.


Poder decidir o que está sendo feito com você mesmo é um dos grandes pilares dos Cuidados Paliativos e, pode-se dizer, de toda a Medicina moderna. O que não se sabe é o quanto Schumacher - na hipótese de não estar de posse de suas faculdades mentais - apoiaria a decisão de sua família de lhe manter vivo artificialmente sem possibilidade de cura com o que se vê no horizonte clínico atual.


O futuro do piloto alemão é uma incógnita. Sua esposa, responsável legal por ele, é quem está decidindo todos os passos que vêm sendo tomados. Para médicos que lidam com doenças sem prognóstico todos os dias como eu, resta torcer para que a falta de informação na verdade esteja escondendo um Schumacher que escolheu o que vem sendo feito com ele próprio.


Vamos torcer pelo sucesso. Seria mais uma vitória dele, desta vez com ainda maior repercussão mundial, pois abriria uma nova possibilidade de tratamento a milhares de pacientes com perda cognitiva, sem dúvida um dos grandes males desse século.




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