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  • Carlos Sperandio

O Geriatra - episódio piloto

Vivemos dias de angústia. Cada vez mais a vida real parece a ficção e vice-versa.


As pessoas têm uma queda por histórias médicas. ER, House MD, Grey's Anatomy, The Good Doctor, The Knick e New Amsterdam são a prova que o grande público se rende a uma boa trama da vida... real! Sim! Nós médicos vivenciamos casos reais com potencial televisivo todos os dias que terminam em feira e, algumas vezes, também nos finais de semana como o caso que contarei hoje, domingo de Sol em terras curitibanas.


Corta para ontem, produção. Sábado de folga, um dos poucos, passeando com os meus cachorros, os meus botões e as consequências de tê-los como companhia, toca o telefone: - Dr Sperandio, o senhor atendeu minha sogra, Dona Z, há uns 3 meses e agora gostaria que o senhor viesse ver minha mãe. Nesses casos, como a maioria dos casos que nos chegam assim de supetão, eu não me lembrei de imediato da Dona Z. Usei recurso, mais proeminente nos médicos quando viram um tawny de mais de 20 anos, de proceder a conversa em busca da identificação pela história de alguma chave que me ajudasse a abrir o arquivo mental dos prontuários iniciados pela última letra do alfabeto:


- Pois não, como está sua sogra?


Dona Z estava ótima. Tinha melhorado muito com minha orientação. Ela era uma senhora de 83 anos obesa, acamada, ofegante, fraca e desanimada. A geriatria é uma especialidade médica que lida com as consequências do estilo de vida. Se você aprendeu quando jovem a ter um estilo de vida saudável, os anos não o castigarão de modo tão carrasco. Agora, se você não soube comer e se exercitar, posso te adiantar, seus 80s farão a inquisição ser o adoleta-lê pêti-pêti pô lá perto do que você vai sentir numa simples ida ao banheiro. Com uma consulta slow, dentro da casa dela, com seus familiares, olhando o ambiente e o que comiam, entendendo os seus medos e os dos quem a assistem, pude orientar correta medicação, exercício e dieta. - Doutor, o senhor transformou a vida da minha sogra, agora precisamos de seu auxílio com minha mãezinha.


Assim parti para exatas 5 quadras da minha casa ver a Dona R. Domingo, 11h manhã, Sol quase no zênite. Éramos eu, meu notebook, minha pasta de receituários e uma necessaire adaptada com meu material médico.

- Olá, sou o Dr Carlos Sperandio, em carne e osso, mais carne do que osso...


Famílias abrem suas casas para poucos estranhos. Ter a liberdade de entrar nos mais íntimos segredos encarece o ticket do sigilo médico. Escolado, graduado e pós-graduado na arte, segui pelos corredores até a suíte onde se encontrava minha paciente e suas três filhas. Incrível como a adaptação faz parecer que o gigante de 1,92 e mais de 100kg pareça mais um gatinho na soleira do que um mamute na loja de cristais. Extrovertido, eu provoco, interajo e encorajo que a história seja contada lentamente, com riqueza de detalhes, à beira-leito. Finalizo minha participação inicial no quarto com um exame físico detalhado, sem pressa, afinal nos domingos os almoços saem mais tarde, tanto o deles, quanto o meu.


A história de R, infelizmente, era clássica. Uma doença crônica não tratada como deveria pelos médicos que a consultaram. Uma paciente com muitas comorbidades pode enganar um médico apressado. A depressão é uma grande mimetizadora de doenças orgânicas. É preciso alto grau de suspeita para definir esse prevalente diagnóstico entre os idosos.


- Meninas, vocês me ajudam a fazer o prontuário na sala de jantar? Dona R, volto falar com a senhora sobre o que faremos, ok?


A outra metade da hora foi dedicada ao registro e às explicações. O notebook facilita ao uniformizar a letra e facilitar o compartilhamento. No mesmo momento que salvo o arquivo, eu o envio em cópia para os familiares. Assim como as receitas e as solicitações dos exames, hoje possíveis de serem feitos online como uma das poucas melhorias da sociedade no pós-covid. O ato mais importante naquele momento era fazer com que a família entendesse que havia tratamento.


- Faremos ajuste nas medicações. Preciso que vocês me ajudem a mensurar a pressão dela, a ajustar a dieta e a promover exercício físico. A geriatria também é uma das especialidades médicas que mais usufrui da longitudinalidade. Faz toda a diferença assistirmos aos capítulos da série da vida de nosso paciente, em vez de nos contentarmos com fotos descritas por terceiros que muitas vezes estão ausentes no filme. Um cuidado geriátrico de excelência sempre preza por estar presente.


- Assim que os exames estiverem prontos me enviem por email. Qualquer intercorrência, deixem-me ficar sabendo. Faremos nossa consulta de retorno em 3 semanas. Vou dar tchau a ela...


Minha consciência, moldada a encarar sempre o lado bom de tudo, registrou: uma idosa, mãe de filhos preocupados, sendo vista por um geriatra num domingo de manhã. Problemas de meses resultaram numa urgência. Diagnóstico feito, proposta terapêutica determinada. Em frente! Afinal, tudo o que realmente importa está nas escolhas de hoje, visando um amanhã melhor! Se fosse uma série de TV, teria havido potencial para exploração por várias e várias temporadas sobre contextos menores, sem importância. Em outras palavras, fantasmas que um dia foram vivos e que só servem para assombrar quem acredita que eles existem. A medicina está evoluindo.

Estamos aprendendo a cuidar.

Deixemos o drama, o terror e a ficção para o Netflix. Encontrem um bom médico para chamar de seu!!! Boa semana!

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