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  • Carlos Sperandio

Diário de um geriatra


Curitiba - Pandemia - dia 25 de julho (Dia do Escritor)


Sábado. 22h39.


Incrível como as noites de sábado mudam com a evolução da nossa linha da vida. O que já era diferente, se tornou extremo com o advento da pandemia.


Os finais de semana do médico geriatra Dr Carlos Sperandio quase sempre contam com visitas no hospital e uma ou outra domiciliar. Hoje o dia foi muito mais do que isso.


7h30

Café preto e uma barra de proteína. 45 minutos de exercícios.


9h.

Visita nos internados. Embora tenham 12 pacientes no meu nome, somente três estão fora do ambiente intensivo. Maldito c19. No andar vejo um senhor de 88 anos com insuficiência cardíaca gravíssima, mas em franca melhora (três vivas para o avanço das medicações cardiológicas que sempre me remetem para o começo dos anos 90, quando meu avô faleceu da mesma doença sem desfrutar do benefício da melhor terapia). Dois quartos ao lado, um idoso jovem de 73 anos com pancreatite biliar (causada por pedra na vesícula). Evoluindo bem, estava acompanhado da filha, que sem jeito tentava gravar minha visita. Escoladíssimo que sou em visitas, não só permiti que ela me gravasse como a ensinei a gravar sem precisar manter pressionado o botão (basta arrastar pra cima!). Foram quatro minutos de uma das minhas melhores aulas sobre pancreatite biliar - importância do jejum e do silêncio gástrico, necessidade da hidratação, descrição da fisiopatologia da doença, como seria a evolução, os exames a serem coletados em 48 horas, suspensão das medicações não essenciais, terminando com meu telefone para contato. Senti que pai e filha tinham ficado impressionados. Só não contava com a inexperiência dela na resolução da dicotomia enviar versus cancelar do final da gravação. Deve haver uma estatística para isso. Ela cancelou, como eu já fiz e aposto que você que me lê também. Ela não se alterou, disse que havia entendido tudo e que passaria aos familiares. A visita hospitalar terminou com um caso de Covid-19. Paciente com performance ruim. 77 anos. Parkinson com autonomia (pensamentos) preservada, porém com acometimento motor grave (motricidade). Filho ansioso com a notícia do diagnóstico e com a possibilidade de má evolução. Hoje, D4 de internação. Paciente muito secretivo. Não houve outra escolha que não a transferência à UTI. Fase difícil, as estatísticas mostram muitos pacientes com essa magnitude de comorbidades entre os que não resistem ao vírus. Saí do hospital com pensamentos na melhora daquele senhor.


11h

Primeira visita domiciliar do dia. Senhora de 91 anos, já com histórico de doença demencial há alguns anos, havia recebido alta ontem por quadro de câncer gravíssimo, que tem evolução de semanas, em média. Eu havia sido indicado pelo oncologista assistente para dar suporte em domicílio. Paciente estável. Sem queixas que atrapalhassem sua qualidade de vida. Quando internada, nesta última vez, sentiu muita falta de sua família, que reciprocamente também não tolerou o afastamento compulsório decretado pelo risco de contágio pelo covid nos hospitais. De comum acordo, iniciamos internação domiciliar, com acompanhamento diário de uma equipe que tenho o prazer de compor, tendo como objetivo que a evolução do processo de morrer seja realizada inteiramente dentro de casa. Um morrer muito digno e ético, difícil de ver no nosso país.


12h30

Corte de cabelo no amigo Nilton (stylo hair). Tudo muito novo e diferente. Dificuldade enorme na lida com as máscaras, as tesouras e os riscos de contágio. Noves fora, por ora, todos isentos do vírus, mas com molduras faciais novas. Excelente estrutura de segurança do local.


13h30

Almoço com a família. Mais três vivas seguido de um yahoo gritado pelos serviços de delivery. Ainda bem que vocês existem, parceiros. Comida de primeira do Restaurante Tortuga - endereço tradicional da cidade que aprendi a gostar mais por influência do Carlos Augusto Sperandio original.


15h

Segunda visita do dia. Casal de idosos no norte da cidade. 35 minutos de carro (mais três vivas, agora para a dupla deezer + google maps). Consulta de reavaliação. Desenvolvi com a pandemia um modelo de acompanhamento geriátrico domiciliar que me permite longitudinalidade. Preceito da minha primeira especialidade, a Medicina de Família, conseguir acompanhar o filme em vez da foto faz toda a diferença nos idosos. Foi gratificante ver como modificações farmacológicas corretas, indicação de um bom serviço de fisioterapia e uma boa relação médico-paciente fazem mudar tudo para melhor em apenas uma semana. Louco para revê-los daqui a 7 dias.


16h15

Também no norte da cidade, mas com 20 minutos de deslocamento entre um e outro, sou recebido por um dos casais mais simpáticos com que me deparei na minha carreira. Ele um sobrevivente. Passou por uma embolia pulmonar, pelo covid 19 e por uma pneumonia pós-covid. Hoje, com fraqueza e hipotensão. O mestre já diria: nada como conhecer a fundo seu paciente. O uso do corticóide indicado para tratar a pneumonia pós-covid fez uma insuficiência da glândula adrenal. Levando-o aos sintomas apresentados. Tratamento consiste em nova dose de corticóide via oral, com esquema de retirada bastante gradual. Ao fim, disse: foi um prazer revê-los, acionem quando precisarem de mim. Não senhor, Dr Carlos, queremos sua companhia quinzenal. Está renovado nosso combinado. Despeço-me com grande sorriso no rosto. Não há remuneração maior que a satisfação do paciente.


17h

Chego no Cabral e estaciono na frente da minha quarta casa. Espero uma paciente querida, que mora perto, vir buscar guias de exames e uma receita de medicação. Ganho um exemplar raro de uma revista médica que ela teve participação. Adorei. Aproveito e mando, por Uber, mais uma receita ao Boa Vista.


17h15

Entro na casa da minha paciente mais idosa em acompanhamento atual. 101 anos. Autonomia preservada, com algumas alucinações causadas pela perda da visão (Sd de Charles Bonnet). Passou por internação recente por embolia pulmonar. Fratura de vértebra há alguns meses, com calo ósseo, já sem a dor que a incapacitara nos meses anteriores. Uma querida. Hoje com queixas pequenas, rememorando a todos em volta o reconhecimento da fortaleza que é. Insegura, claro, ela é como qualquer centenário. Nunca pensou em morrer e, agora, está de frente para a morte. Como não ficar assustada? Uso de todas as minhas palavras para tranquilizá-la. Estamos e estaremos juntos. Não haverá sofrimento. O quadro atual é estável. Seguimos.


18h15

Subo ao apartamento da última visita do dia. Casal de idosos. Amigos. Quaisquer pessoas que você vem encontrando semanalmente por 9 meses torna você íntimo. Sentei-me junto à mesa enquanto jantavam. Estáveis das queixas clínicas. Foram 45 minutos de franca conversa sobre tudo e sobre nada. Agradeceram-me como sempre e como nunca, pois dessa vez eu não fui médico. Fui amigo. Como mimo, ganhei uma caixa de chocolates.


19h30

Jantar com a família em meio a um embate no xadrez entre meus dois filhos. Estão crescendo!


21h

Toca o telefone. Colega médico, ex-professor. Grande exemplo de profissional que me honra com a confiança de me encaminhar seus amigos, familiares e clientes, quando precisa de apoio clínico-geriátrico. O caso era uma suspeita de covid em sexagenária. Ele me perguntara o que fazer. Quando comecei a lhe contar ele me interrompeu: ela pode ligar agora ou prefere amanhã de manhã? Agora, eu disse rindo…


21h45

Finalizo mais uma orientação sobre o coronavírus e suas possibilidades terapêuticas. Estamos vivendo tempos difíceis em termos de conduta médica. Por esse motivo, só contarei como estou tratando o c19 para os meus pacientes, pois me é exigido (e permitido!) o sigilo. Gostaria muito que pudéssemos ser uniformes um dia no apontamento da melhor abordagem, contando todas as variáveis possíveis, descontando conflitos de interesse e pensando única e exclusivamente no melhor para os pacientes. Esse dia chegará, com certeza. Muitos dirão que já chegou, eu não concordo ainda. Impossível bater o martelo com a evidência de hoje 25/07/20.


23h39

Encerro essa página deste diário pandêmico. Estimando mais do que nunca que voltemos à normalidade. Cansei dessa fase. Já está na hora de evoluirmos para o pós-covid-19 e sua nova realidade.


Carlos Sperandio

Geriatra - Internista

41 999792120

www.carlossperandio.com








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