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Último ato - Como estamos lidando com a morte de nossos idosos?



A arte de envelhecer saudavelmente até, inclusive, o evento morte, porque - pasmem - todos morreremos.


Em 2050 eu terei 74 anos. Serei - se tudo der certo e eu conseguir postergar minha morte como todo ser vivo natural e incondicionalmente o faz - mais um entre os 30% da população idosa do Brasil e de 20% do mundo. Isso, senhoras e senhores, é dado de muito impacto. Pouco estamos filosofando em cima dele.


Precisamos, nós como a geração envelhecida de amanhã, repensar as estratégias em relação a morte dos nossos idosos, sejam nossos pais hoje, sejamos nós próprios daqui a algumas décadas.


Como geriatra internista vejo diariamente cerca de 10 a 15 idosos hospitalizados comigo no Hospital Santa Cruz, no coração de Curitiba. Esses pacientes internam comigo a partir dos 70 anos, mas a média mesmo gira em torno dos 85, não raro chegando aos 90, 95.


Muitos vêm com doenças crônicas, as chamadas não transmissíveis, e suas consequências como as doenças neurodegenerativas. A perda de capacidade funcional - inerente à senescência (envelhecimento fisiológico) - desaba quando associada à senilidade (envelhecimento com doença).


A morte é evento esperado nos mais velhos, pois é a ordem natural da vida. Quanto mais velho se fica, maior sua chance de morrer. Além disso, é bem estabelecido que todos morrem de doença, não havendo causa natural para nenhum óbito, mesmo de centenários muito muito idosos (mais de 110 anos).


Meus pacientes que internam e evoluem a óbito na maioria não são independentes, ou seja, já chegam com a história de que necessitavam de auxílio para as atividades básicas de vida - como se vestir, usar o banheiro e se alimentar. Alguns nem mesmo engolir conseguem mais, sendo alimentados de maneira artificial com sondas e gastrostomias.


Soma-se à dependência, a perda do poder de decisão. A autonomia desaparece com a evolução dos quadros degenerativos cerebrais, fazendo com que a responsabilidade sobre o que fazer seja terceirizada para os filhos, que nunca se aperceberam que isso aconteceria.


Esse é o ponto central deste artigo. Precisamos, nós os profissionais da área da saúde que prestam serviço a idosos, abrir discussão com eles enquanto estiverem com sua autonomia preservada, trazendo o assunto morte e finitude para a mesa com o principal interessado - quem vai morrer.

Ficarmos tratando a morte como tabu somente fará que o assunto seja postergado para um tempo em que não se saberá o que aquela pessoa em cima de uma cama, presa numa doença terminal, artificialmente mantida viva gostaria que fizessem com ela numa situação sem prognóstico. A decisão recai sobre os herdeiros, cônjuge e filhos. Verdadeira mata fechada em termos de legislação e bom senso, pois cada família vem com uma bagagem espiritual, social e financeira única, tornando ainda mais desafiadora a tomada de decisão.


A maioria dos filhos com quem eu converso sobre os pais nesta situação não conseguem concordar de imediato com a decisão de não tratamento artificial para as doenças sabidamente sem prognóstico. Mesmo sendo o pai ali presente uma pessoa com nenhum propósito de vida, algumas vezes contactando apenas com o olhar, se tanto.


Precisamos começar a pensar quando nós estivermos naquela cama. Seria isso que aspiraremos para nós mesmos? Que nossos filhos tomem a decisão por nós?


Para que possamos escapar de deixar essa herança em vida cabe relembrar que todos podemos deixar um testamento vital com diretivas antecipadas do que queremos que seja feito conosco em situações extremas.


Trazer essa conversa para nossos pais e avós hoje dentro de nossas casas e em toda oportunidade possível com nossos pacientes idosos é mais que um serviço de utilidade pública - pois poupará recursos humanos, financeiros e emocionais ao promover a boa morte.


Morrer velho é esperado. Morrer sem assistência plena, com sofrimento, postergando a evolução natural das doenças é desumano.

Cabe a ressalva que na geriatria os quadros clínicos não obedecem padrões pré-estabelecidos como as demais áreas do conhecimento médico. Assim como cada indivíduo envelhece de maneira única, as apresentações das doenças nos idosos também demonstram ser únicas, desafiando os médicos assistentes no correto diagnóstico, pois sem ele não há como estabelecer prognósticos.


Cuidados Paliativos em idosos em fase final da vida são assunto muito importante no contexto epidemiológico de hoje. Não falarmos sobre ele é negligência.


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